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BrasilO psicodrama brasileiro já nasceu interligado a países de língua espanhola. Um colombiano radicado na Argentina, Bermúdez, e um argentino que virou meio brasileiro, Bustos, estão no berço da formação dos psicodramatistas pioneiros no Brasil, a ponto de a palavra consigna, de origem castelhana e significando ordem ou instrução, ser incorporada como um linguajar técnico da língua portuguesa, embora não conste de qualquer dicionário de português. Por muitos anos os livros de psicodrama adotados entre nós eram livros de autores argentinos ou traduções para o espanhol de livros de Moreno.

Nos anos 70 e 80, frequentamos muitas vezes congressos e encontros de psicodrama na Argentina, conhecendo muitos colegas de lá. Fizemos amigos nesta parte do Cone Sul. Nos anos 80, Alfredo Soeiro viajava periódicamente a Portugal para dar formação psicodramática para um grupo de profissionais portugueses, plantando uma semente brasileira no solo de Camões.

Nos quatro primeiros congressos brasileiros de psicodrama (78, 80, 82, e 84) ficamos fechados entre nós, brasileiros, estruturando aos poucos a nossa fisionomia e aparando nossas diferenças mais gritantes, até que, em Caldas Novas, em 1986, abrimos as portas de nossos congressos para convidados estrangeiros, Monica Zuretti por exemplo, que dirigiram vivências e participaram de discussões teóricas. Temos notícias de colegas brasileiros, mais ou menos nesta época, que levaram o psicodrama para o Chile e para o Paraguai.

Alguns de nós participaram de congressos internacionais de psicoterapia de grupo da IAGP (International Association of Group Psychotherapy), como o de Amsterdã e o de Barcelona, conhecendo vários colegas de diversas partes do mundo. Embora a IAGP não impedisse a participação dos latino-americanos na inscrição de trabalhos, a dificuldade da língua nos colocava em segundo plano. Durante uma reunião preparatória do congresso da IAGP em Londres, ao pedido dos latinos de uma tradução simultânea para o espanhol, tivemos como resposta arrogante de um dos organizadores britânicos: "Se vocês pagarem...". Assim eram as coisas.

Em 1991 foi realizado em São Paulo o IV Encontro Internacional de Psicodrama, com o apoio (somente apoio) da IAGP. Neste encontro eu tive o privilégio de ser o coordenador da comissão científica, responsável pela organização dos trabalhos e pelo contato com os colegas estrangeiros. Desta minha equipe, entre outros colegas, participava Moysés Aguiar (logo se verá a importância disso). Com a grade da programação científica pronta e impressa, a duas semanas da realização do evento, estourou a Guerra do Golfo. Além disso, apesar do apoio da IAGP, um outro congresso internacional de psicodrama, organizado depois do nosso, foi programado na Austrália na mesma época. Qual o resultado óbvio de tudo isso?. Muitos colegas estrangeiros já comprometidos conosco e já inscritos como relatores de mesas-redondas ou como diretores de vivências psicodramáticas desistiram de vir por medo de atentados terroristas ou porque preferiram ir para a Austrália. O governo da Suécia, por exemplo, recomendava que seus cidadãos evitassem viagens aéreas. Soubemos também de uns poucos colegas portenhos que preferiram o sol da costa da Oceania. E assim faltaram russos, japoneses, búlgaros, franceses, italianos e suecos, literalmente, dos que me lembro. Vieram argentinos, uruguaios, espanhóis, americanos, alemães e um filandês. Foi neste congresso que conheci os cinco espanhóis que vieram a São Paulo: Pablo Población Knappe, o decano dos psicodramatistas espanhóis, Elisa Lopez Barberá, sua mulher, também psicodramatista, Roberto de Inocencio Biangel, que se tornaria alguns anos mais tarde presidente da IAGP, Marisol Filgueira Bouza, que acaba de ser eleita a presidente do congresso ibero-americano de 2007, que se realizará na Galícia, e Paloma, que não integra mais as fileiras do psicodrama, mas que na época trabalhou como ego-auxiliar.

Por que me detenho em tais minúcias?. Os buracos do programa foram preenchidos com a boa vontade e a participação dobrada de última hora dos estrangeiros que vieram e, particularmente, de Pablo Población. Nasceu daí uma admiração mútua e uma grande amizade entre nós. Passamos a nos corresponder e a trocar livros e artigos de psicodrama, não só os nossos, como também os de diversos colegas brasileiros e espanhóis. Pablo me disse que adotara vários textos e livros nossos em seu curso de formação de psicodrama e que começara a estudar português para nos entender melhor. Pablo fundou uma revista, "Vinculos", que sobreviveu alguns números, onde publicou artigos meu e do Fonseca. Em contrapartida, traduzimos dois de seus livros pela Ágora, o primeiro dos quais eu prefaciei.

O congresso da Associação Espanhola de Psicodrama (AEP) é realizado anualmente, num país em que o número dos psicodramatistas mal chega a duzentos. Em 1994, os nossos colegas espanhóis, no máximo 100 nesta época, convidaram Moysés Aguiar para participar ativamente deste congresso espanhol. Já tinham tido contato com o Fonseca anteriormente e elogiavam muito o seu trabalho. Terminado o congresso, o nosso Moysés, viajando com Jose Antonio Espina Barrio, de Valladolid, pelas estradas da terra de Cervantes e do flamenco, conversavam e sonhavam (permitam-me imaginar um pouco e improvisar sobre a conversa verdadeira) com um espaço psicodramático exclusivamente ibero-americano. Como seria bom poder organizar um congresso ibero-americano de psicodrama, em que os participantes tivessem uma raiz linguística e cultural semelhante!. E assim nasceu a idéia do ibero, como passamos a apelidar o congresso carinhosamente.

No ano seguinte, 1995, foi a minha vez. Fui convidado por eles para participar do congresso espanhol dirigindo vivências e integrando mesas-redondas em Vitoria, capital do País Basco, norte da Espanha, e depois para dirigir uma vivência psicodramática na Universidade de Bilbao. No congresso, eu e um colega português éramos os únicos estrangeiros presentes. Durante a sua realização houve uma reunião fechada e, pelo que acabei sabendo, bastante tensa, dos dirigentes da AEP (Associação Espanhola de Psicodrama). Na saída desta reunião a diretoria da AEP veio me pedir que dirigisse um sociodrama com todos os congressistas para ajudar a resolver ou minorar estas tensões. Esta seria a atividade que encerraria o congresso. Eu fui o escolhido porque, sendo de fora, estaria mais livre para este trabalho de direção. Confesso que esta foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida como psicodramatista. O grupo foi montando junto, aos poucos, dramaticamente e sob a minha direção, a história da AEP com os personagens vivos e ali presentes em carne e osso. E em cada conflito que surgia neste percurso histórico parávamos para confrontos, acertos de variadas versões dos mesmos acontecimentos, correções e preenchimentos de lacunas. Recuperaram a história de 11 congressos até este último. O grupo concluiu o trabalho se propondo a realizar o sonho do Moysés e do Jose Antonio, se propondo, enfim, a organizar o I Congresso Ibero-americano no ano seguinte em Salamanca, na mais antiga universidade da Europa. Para isso eles me pediram para levar pelo menos 20 brasileiros para caracterizar o congresso como ibero-americano. O congresso terminou com o grupo me carregando nos ombros e gritando: "Torero! Torero!". Não contive a choradeira, é claro.

Trouxe a idéia para a FEBRAP, que, tempos depois me convidou para a função de seu representante junto ao Iº Ibero. Em 1997 não levamos 20. Levamos 200 psicodramatistas brasileiros que apresentaram mais de 100 trabalhos práticos e teóricos. Éramos mais da metade de tudo, congressistas e trabalhos. Foi a maior participação brasileira em congressos internacionais de psicodrama até então. O sonho foi realizado. Marlene Marra, que era a presidente da FEBRAP na época e eu, representante junto ao congresso, levamos para Salamanca a proposta de realização do IIº Congresso no Brasil, que foi aprovada.

Em 1999 o IIº Ibero aconteceu em Águas de São Pedro, congresso em que fui o presidente a convite da FEBRAP, trabalhando com uma equipe de, aproximadamente, 60 pessoas, das mais diversas instituições psicodramáticas de São Paulo, fora os representantes de cada federada de todo o Brasil. Seguiram-se o IIIº em Portugal, em Póvoa do Varzim, terra de Eça de Queiroz, em 2001, e o IVº em Buenos Aires, em 2003. Estamos nos preparando para maio de 2005 na Cidade do México. Em 2007 será na Espanha novamente, na Galícia, provavelmente em La Coruña, ao norte de Portugal, terra dos galegos. No México será levada a proposta de Brasil em 2009 e Chile em 2011. Por que esta sequência e estas datas?. Em Salamanca, no fim do congresso, foi realizada uma reunião com os presidentes das instituições (do Brasil a FEBRAP e, na época, a Cia. de Teatro Espontâneo) e os seus representantes junto ao ibero, para prestação de contas, escolha da sede do próximo congresso e traçado de alguns parâmetros.

Decidiu-se em Salamanca e, depois, nos demais congressos, que este forum, que se reuniria ao fim de cada congresso, seria o menos burocrático possível e sem normas escritas. Que o congresso poderia ter congressistas de qualquer país, mesmo não sendo ibero-americano, mas que os trabalhos práticos e teóricos só poderiam ser apresentados por psicodramatistas de origem ibero-americana ou não ibero-americanos se radicados em países ibero-americanos (como o caso de Ursula Hauser, suiça, mas radicada há muitos anos na Costa Rica). Que os congressos seriam alternadamente de um lado e do outro do Atlântico. Isto foi modificado em vista do número muito maior de países da América. Hoje é assim: um congresso na Europa e dois na América Latina. Por isso volta para a Espanha em 2007. E porque depois da Espanha teria que voltar para a América e aqui, fora o Brasil, ninguém está estruturado agora para organizar um congresso deste porte, a idéia é repetir Brasil. O Chile se sente em condições para 2011.

Em Buenos Aires, que eu me lembre, tivemos psicodramatistas do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Venezuela, Peru, Equador, Costa Rica, Cuba, México, Estados Unidos, Canadá, Israel, Portugal e Espanha. Iberos e não iberos (lembrar, por exemplo que Estados Unidos não é um país ibero-americano, valendo o critério de participação e de apresentação de trabalhos mencionados). Este panorama de Buenos Aires dá uma idéia do quanto este movimento e este congresso estão em fantástico crescimento. Nenhum congresso internacional de psicodrama nos dá tanto espaço para a apresentação de nossos trabalhos.

Sergio Perazzo